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Documentos
Históricos,
Direto da Fonte
Os primeiros documentos que descrevem as terras do Brasil foram escritos
ou por portugueses que faziam parte das mssões oficiais da Coroa,
ou por navegadores de outras nacionalidades, que também tentaram
obter sua parte no novo continente.
Entre estes,
destaca-se o francês Jean de Lery, que publicou um volume
chamado Viagem a Terra do Brasil em 1578, com descrições
interessantes ao leitor europeu. É importante analisar o tipo de
preocupação que o narrador possui, pois revela o universo
de discussões no qual estava iserido.
Seguem-se
trechos das anotações de Lery.
Do Descobrimento e a Primeira Vista
que tivemos da India Ocidental
“Tivemos desde então vento
de oeste que nos foi propício e permaneceu tão constante
que a 26 de fevereiro de 1557, pelas oito horas da manhã, avistamos
a índia Ocidental ou terra do Brasil, quarta parte do mundo, desconhecida
dos antigos e também chamada América, do nome daquele que
em 1497 primeiro a descobriu. Não é preciso dizer que muito
nos alegramos e rendemos graças a Deus por estarmos tão perto
do lugar que demandávamos. Com efeito há cerca as nuvens,
velejamos para a terra e no mesmo dia, com nosso almirante à frente
fomos ancorar a meia légua de um lugar montanhoso chamado Huuassú
pelos selvagens. Botamos nágua o escaler e depois de ter de quatro
meses já não víamos porto e flutuávamos no
mar não raro com a idéia de que nos encontrávamos
num exílio sem solução. Por isso logo que verificamos
ser o continente que víamos, pois muitas vezes nos enganaram disparado
alguns tiros de peça para avisar os habitantes, conforme o costume
de quem chega a esse país, vimos reunirem-se na praia homens e mulheres
em grande número. Nenhum de nossos marinheiros, já
viajados, reconheceu bem o sítio; entretanto os selvagens eram da
nação dos Margaid, aliada dos portugueses e por conseqüência
tão inimiga dos franceses que se nos apanhassem em condições
favoráveis, não só não nos teriam pago resgate
algum mas ainda nos teriam trucidado e devorado. E logo pudemos admirar
as florestas, árvores e ervas desse país que, mesmo em fevereiro,
mês em que o gelo oculta ainda no seio da terra todas essas coisas
em quase toda a Europa, são tão verdes quanto na França
em maio e junho. E isso acontece durante todo o ano nessa terra do Brasil”.
Sobre árvores, frutas e
animais que observou no Brasil
“Eis tudo o que pude observar acerca
das árvores, plantas e frutas do Brasil durante um ano quase de
estada. Não existem na América quadrúpedes,
aves, peixes ou outros animais completamente idênticos aos da Europa;
não vi tampouco árvores, ervas ou frutas que não divergissem
das nossas, à exceção da beldroega, do manjericão
e do feto que vive em vários lugares, como pude observar nas excursões
que fiz pelas matas e campos do país. Por isso, quando a imagem
desse novo mundo, que Deus me permitiu ver, se apresenta a meus olhos,
quando revejo assim a bondade do ar, a abundância de animais, a variedade
de aves, a formosura das árvores e das plantas, a excelência
das frutas e em geral as riquezas que embelezam essa terra do Brasil, logo
me acode a exclamação do profeta no salmo 104:
Ó seigneur Dieu, que tes oeuvres
divers
Sont merveilleux par le monde
univers:
Ó que tu as tout fait par
grande sagesse!
Bref, la terre est pleine
de ta largesse.
Felizes seriam os povos dessa terra
se conhecessem o Criador de todas essas coisas. Como porém isso
não acontece, vou tratar das matérias que nos provarão
quão longe estão eles ainda disso”.(pp181)
Canibalismo
"O selvagem encarregado da
execução levanta então o tacape com ambas as mãos
e desfecha tal pancada na cabeça do pobre prisioneiro que ele cai
redondamente morto sem sequer mover braço ou perna. E dir-se-ia
um magarefe abatendo um boi. Em verdade muitas vezes as vítimas
estrebucham no chão, mas isso por causa do sangue e dos nervos que
se contraem. O executor costuma bater com tal destreza na testa ou
na nuca que não se faz necessário repetir o golpe e nem a
vítima perde muito sangue.(...)
E então, incrível
crueldade, assim como os nossos caçadores dores jogam a carniça
aos cães para torná-los mais ferozes, esses selvagens pegam
os filhos uns após outros e lhes esfregam o corpo, os braços,
e as pernas com o sangue inimigo a fim de torná-los mais valentes.
Depois da chegada dos cristãos
a esse país, principiaram os selvagens a cortar e retalhar o corpo
dos prisioneiros, animais e outras presas com facas e ferramentas dadas
pelos estrangeiros, o que faziam antes com pedras aguçadas como
me foi dito por um ancião.
Todas as partes do corpo, inclusive
as tripas depois de bem lavadas, são colocadas no moquém,
em torno do qual as mulheres, principalmente as gulosas velhas, se reúnem
para recolher a gordura que escorre pelas varas dessas grandes e altas
grelhas de madeira; e exortando os homens a procederem de modo que elas
tenham sempre tais petiscos, lambem os dedos e dizem: iguatú, o
que quer dizer "está muito bom".
Eis como os selvagens moqueiam a
carne dos prisioneiros de guerra, processo de assar que nos é desconhecido.
Quanto à forma do moquém, lembro aos leitores que já
a expliquei no capítulo X. Limitar-me-ei a refutar o erro daqueles
que, como se pode ver de seus mapas universais não somente
nos representaram os selvagens do Brasil assando carne humana em espetos
como fazemos com a de carneiro e outras, mas ainda no-los pintaram a cortá-la
sobre bancas, com grandes cutelos, como entre nós os carniceiros
fazem com a carne de vaca. Em verdade tais fantasias são tão
verdadeiras quanto a história que conta Rabelais a respeito de Panurge,
o qual teria escapulido do espeto lardeado e semicozido. Quem tais
coisas escreveu dos selvagens do Brasil era pessoa ignorante do assunto
que tratava. Tanto os brasileiros desconheciam o nosso modo de assar
que certo dia ao nos verem em uma aldeia assando aves no espeto zombaram
de nós e se recusaram a acreditar que uma ave assim continuamente
volteada viesse a cozer, só o admitindo afinal pela comprovação
do fato”.
Sentimento Religioso
"(...)Narro isso tudo a fim de que
saibam os endiabrados ateus de que nossa terra anda cheia e, como os tupinambás,
embora de um modo muito mais bestial, procuram fazer crer que Deus não
existe, que nos selvagens encontraram pelo menos a prova da existência
do diabo nos seus tormentos ainda neste mundo. E se replicarem, como o
fazem alguns, que o diabo não passa dos sentimentos maus dos homens
e portanto é absurdo persuadirem se os selvagens de coisas fantásticas,
responderei que os americanos são realmente atormentados por espíritos
malignos, pois nunca seria possível que paixões humanas,
por mais violentas que fossem pudessem afligi-los a tal ponto, aliás,
se não fosse pregar no deserto poderia citar aqui o que diz o Evangelho,
dos endemoninhados que foram curados pelo filho de Deus.
A esses ateus que negam todos
os princípios e por isso mesmo são indignos de ouvir falar
nas Santas Escrituras apontarei os nossos pobres brasileiros que, a pesar
de sua cegueira, admitem não só existir no homem um espírito
que não morre com o corpo mas ainda a felicidade ou a desgraça
no outro mundo.
(...) Voltemos porém ao assunto
da religião entre os selvagens da América. Verificando
que quando ouvem o trovão são levados por uma força
irresistivel a temê-lo, podemos deduzir que não só
se verifica assim a verdade do axioma de Cícero de que nenhum povo
existe sem alguma noção de divindade mas ainda que não
há desculpa para aqueles que não querem conhecer o Todo Poderoso.
Quando o apóstolo disse que Deus permitiu aos gentios seguirem o
caminho que bem entendessem, a todos beneficiando entretanto com a chuva
do céu e a fertilidade das estações, observou que
os homens só não conhecem o Criador em virtude de sua própria
malícia. Aliás o que é invisível em Deus encontra-se
visível na criação do mundo.
Embora os nossos americanos
não o confessem francamente, estão na verdade convencidos
da existência de alguma divindade; portanto, não podendo alegar
ignorância não estarão isentos de pecados. Além
do que já disse acerca da imortalidade da alma, em que acreditam,
do trovão a que temem e dos espíritos malignos que os atormentam,
mostrarei como essa semente de religião (se é que as práticas
dos selvagens possam merecer tal nome) brota e não se extingue neles,
não obstante as trevas em que vivem.
Os selvagens admitem certos falsos
profetas chamados caraíba (pajé) que andam de
aldeia em aldeia como os tiradores de ladainhas e fazem crer não
somente que se comunicam com os espíritos e assim dão força
a quem lhes apraz, para vencer e suplantar os inimigos na guerra, mas ainda
persuadem terem a virtude de fazer com que cresçam e engrossem as
raízes e frutos da terra do Brasil”.
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