|
|
"Guerra
sem guerra"
São
Paulo durante a Segunda Guerra Mundial 1939-1945
 |
Há sessenta anos atrás
tinha início a Segunda Guerra Mundial, que tornou-se uma marco na
história do século.
As proporções que a Guerra assumiu,
seja em número de mortos ou de países envolvidos, os modelos
políticos que através dela se enfrentavam, a vasta utilização
da mídia para em sua veiculação , tornaram-na referência
obrigatória a qualquer estudo sobre o período.
Do outro lado do Atlântico,
em que medida a Guerra concretamente afetou o Brasil? |
As notícias sobre as batalhas, avanços e recuos dos exércitos
na Europa estavam no cotidiano da imprensa brasileira, nos jornais, no
rádio e no cinema. O assunto era um tema presente nas preocupações
dos brasileiros, ainda que a guerra concreta estivesse tão distante.
Isto justifica o título do texto de doutoramento do historiador
Roney Cytrynowicz, "Guerra sem guerra: a mobilização e
a constituição do front interno em São Paulo durante
a Segunda Guerra Mundial 1939-1945".
Ao analisar os jornais da época, os diários e as memórias,
revistas e outras publicações, a evidência do tema
é encampada como estratégia do Estado Novo, implantado por
Getúlio Vargas em 1937, para a "mobilização e a constituição
do front interno". O autor sugere a utilização da Guerra
quase que como álibi para o alinhamento da sociedade brasileira
ao Regime, em moldes disciplinadores e militarizados.
A filosofia do "servir à pátria" adquiria legitimação
à sombra do conflito, e materializava-se na formação
de inúmeros grupos de escoteiros, entre os meninos, e na difusão
do ideal da enfermeira, entre as meninas. O envolvimento das mulheres no
"front interno" seguiria esta linha. Elas encontrariam seu lugar representando
a "mãe-pátria" no atendimento aos feridos, enquanto os homens
preparavam-se como soldados para a FEB.
 |
A mobilização
popular passava pela crença de um possível ataque ao Brasil.
Para tanto, houve exercícios de como comportar-se num blecaute,
em caso de bombardeio à cidade
As Campanhas da Guerra uniam
pelo sacrifício coletivo: a "Horta da Vitória", a "Campanha
de Vitaminas para o Povo", a instituição do "Pão de
Guerra".
O fantasma da escassez, ainda
que ela não chegasse a ocorrer efetivamente, era amplamente utilizado
nesta política de arregimentação, em especial junto
às classes médias. Fala-se sempre de um "fortalecimento"
da população, desconsiderando que, mesmo sem a situação
de Guerra, os níveis de desnutrição e mortalidade
infantil eram altíssimos. |
O capítulo
"A guerra do pão e a vitaminização da Nação"
oferece dados de reflexão sobre a real necessidade da substituição
do pão branco. A resistência em adotar o "pão escuro",
duro, desconhecido (seria algo próximo do que é hoje o pão
integral), daqueles que podiam "conseguir com o padeiro" o seu pão
de sempre, mostra que havia algo mais que escassez envolvido no tema. A
política do país em relação ao trigo, extremamente
valorizado no mercado internacional naquele momento, era uma das variáveis
inseridas na discussão. O processo de especulação
sobre os gêneros alimentícios também é um argumento
a ser levado em conta.
| A utilização
do gasogênio, substituindo os combustíveis derivados de petróleo,
também constitui uma referência evidente na memória
sobre a época. Assim como o" pão de guerra", segundo o autor,
o alarde da escassez encobria toda uma relação de tensões
e interesses vinculados à política de transporte na cidade.
Curiosamente, no contexto de esforço de guerra, as revistas registravam
a preocupação dos usuários com a elegância. |
 |
A
interferência do Regime no esquema de produção industrial,
por outro lado, mostrou uma face mais dura, inserindo os trabalhadores
na "Batalha da Produção". Em julho de 1944, houve a suspensão
de direitos trabalhistas da CLT (instituídos em 1943): os empregadores
podiam transferir operários de uma indústria para outra,
desde que na mesma cidade, e o empregado não poderia sair de seu
trabalho sem autorização oficial. Sem sindicatos livres no
país durante o Estado Novo, as medidas eram drásticas e sem
espaço para negociação. A Indústria Têxtil,
por exemplo, teve lucros extraordinários com jornadas longas, salários
baixos e demanda alta para a exportação.
O diálogo que o autor constrói entre a documentação,
a memória que se eterniza e a historiografia sobre o tema é
em si um importante viés metodológico para os profissionais
da área, num momento onde vemos estes termos usados com tão
pouco critério.
Um bom exemplo é a recuperação de todo um viés
de deboche sobre a vida no período, que permaneceu especialmente
no samba. Ele nos dá a medida da vivência ambígua de
uma população estimulada ao sacrifício de Guerra,
para uma guerra que se fazia pouco presente, e era mediada pelas orientações
do presidente-ditador. Por outro lado, como afirma Cytrynowicz, o próprio
Getúlio mantinha sua posição ambígua, pois
"uma articulação política mais efetiva pró-Aliados
significaria o fim do Regime".
O texto da dissertação, que trabalha vários outros
aspectos, como a situação dos imigrantes naquele momento
específico, a Batalha da Borracha, e faz um paralelo entre a memória
de 32 na cidade e a memória de 39, está aprovado para co-edição
na EDUSP, e deve ser publicado em breve.
|
Autor:
Roney Cytrynowicz
Instituição:
Depto. História, FFLCH-USP
Orientação:
Prof.Dr.Ulisses Telles Guariba Netto
Apoio:
Cnpq |
|
Copyright © Webhistoria
30 de agosto de 1999
|