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O Rei no Espelho: A Monarquia Portuguesa e a Colonização da América
A tese de doutorado de Rodrigo Bentes Monteiro,
O Rei no Espelho: A
Monarquia Portuguesa e a Colonização da América,
oferece uma instigante reflexão sobre a importância da "presença
ausente" do Rei português na conformação do Brasil
enquanto Colônia. Sendo uma entre as diversas atenções
da Coroa portuguesa, como é sabido, não era uma jóia
prioritária nos primeiros tempos de sua "existência oficial".
A produção açucareira, o domínio holandês,
e a perda da Independência portuguesa para a Espanha, recolocaram
esta questão.
Seu
trabalho estabeleceu o período de 1640 e 1720 como balizas para
a compreensão do que denominou "a consolidação da
Dinastia de Bragança".
1640 é o ano em que Portugal restaura um governo independente da Espanha, pondo fim ao chamado período da "União das duas Coroas". Este momento de rebelião e ruptura com outro Estado inaugurou um período em que os monarcas portugueses tiveram que lidar tanto com sérias questões internas quanto com as demandas de manutenção do Império Ultramarino.
A opção por estudar as
revoltas e a maneira que a figura Real é nelas envolvida oferece
a oportunidade de observar, na memória sobre o momento de conflito,
como se eterniza a representação do poder. Por outro lado,
é necessário considerar que esta Dinastia havia se instaurado
através de uma rebelião contra a Espanha, obrigando a uma
negociação menos arrogante com os grupos locais.
Trabalhando
com tempos distintos, localidades e organizações sociais
e econômicas diferenciadas, Rodrigo mostra a proximidade da imagem
da Realeza que é construída em Portugal e reforçada
no Brasil.
Na
primeira das rebeliões, o que estava em jogo era a manutenção
da autonomia dos paulistas em seu exercício de bandeiras de apresamento
indígena, seguidamente contestada pelos jesuítas. A tentativa
de utilizar a rebeldia portuguesa frente a Espanha como álibi para
uma rebeldia contra a própria Corte, aclamando-se um Rei local (fato
que é discutido pelos historiadores, como nos mostra o autor), teria
terminado por ser quase que ignorada em Lisboa, até por que o próprio
aclamado não apoiou o movimento. Entre outras questões, é
evidente que problemas mais sérios ocupavam D. João IV. O
que acontecia em paragens tão remotas como São Paulo não
tinha nenhum destaque no momento.
Rodrigo Monteiro estabeleceu
1720 como baliza temporal para seu estudo. Naquele momento os riscos de
contestação aos direitos da Casa de Bragança já
estavam superados. Neste mesmo ano, D. João V, envolto no ouro que
chegava do Brasil, fundava a Academia Real de História, que produzia
a imagem régia acabada e construída. Como nota o autor, é
um momento de produção de obras laudatórias, estendendo
para além mar o orgulho e a imponência da Monarquia Portuguesa.
Ao mesmo tempo em que se assumia uma postura de maior rigidez administrativa,
consolidava-se o culto à figura do Rei, misturando-o nas inúmeras
celebrações religiosas ou não que ocorriam na Colônia. O
Rei no Espelho contribui para que se observe de forma diferenciada
e específica os diversos momentos e contextos envolvidos no que
se convencionou chamar de período Colonial. Apresenta, também,
uma pesquisa importante sobre a afirmação da Casa de Bragança,
que não só manteve-se na liderança daquele período
como criou vínculos que permitiu que o processo de Independência
não a banisse da América. Neste sentido, oferece importantes
reflexões para a compreensão do Brasil do século XIX,
que é marcado pela presença de Rei e da Corte no Rio de Janeiro.
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