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Monteiro Lobato
Monteiro
Lobato é uma destas figuras que provoca amores e ódios. Possui
legiões enormes de fãs devido a seus livros para crianças,
e foi execrado pela crítica modernista, desde seu artigo "Paranóia
ou Mistificação", sobre a exposição de Anita
Malfatti. É reconhecido como um dos criadores da indústria
editorial no Brasil, mas deu-se várias vezes mal como empresário.
A maneira como Lobato apresenta o processo de modernização urbana e tecnológica é a questão central deste estudo. A oposição entre os anos em que viveu no Vale do Paraíba (Taubaté, no final do século XIX, em Areias, entre 1906 e 1911, e na Fazenda Buquira, até 1915), e seu fascínio por São Paulo, que conheceu durante os anos da Faculdade de Direito, mostram o forte apelo que a inovações técnicas e a vida cultural exerciam sobre ele. Em 20 anos, a cidade passou de vilarejo a grande centro, e esta veloz transformação é narrada por Lobato, em suas cartas e em seus artigos. Desde cedo, apaixonou-se pela fotografia, pelo cinema e depois pelo rádio. Em suas cartas, aos mais diversos destinatários, vibrava ao falar do progresso técnico, a começar pelo trem. Por outro lado, manteve posturas conservadoras em suas concepções de arte (daí a crítica à pintura moderna) e, mesmo em termos estilísticos, inovou pouco literariamente.
A fama veio com a publicação do artigo “Uma Velha Praga”,
em 1916, em que Lobato lança a figura do Jeca Tatu, chamando o caboclo
de “piolho da terra”. Desde então, ele percebeu o sucesso das
imagens polêmicas tirou muito proveito desta estratégia .
O perfil do Jeca, como se acompanha no trabalho, foi se alterando, com
a compreensão que “O Jeca não é assim. Ele está
assim”. Daí seguiram-se as campanhas pela saúde pública
e pela educação, entre outras. Associado ao desejo de fama
e fortuna, há na obra, nas cartas e na atuação de
Lobato um desejo de “consertar” o Brasil.
A figura do Caleidoscópio é usada, assim, para compor cenas que mesclam este percurso cheio de contradições, que permeou o processo de modernização no Brasil. A contribuição de Lobato, para além de sua atuação objetiva em campanhas e projetos, está na criação de uma mentalidade aberta à composição de fragmentos que permitem pensar um mundo composto por diversos caminhos, distante das ideologias excludentes que aceitam a validade de apenas um.
Este trabalho, apresentado em 1992, tem sua inclusão nesta coluna, que em geral aborda teses recentes, atendendo a pedidos de leitores da página.
Copyright © Webhistoria 28 de outubro de 1999. |